Espaço-tempo do espetáculo "Entrevista com Stela do Patrocinio", de Georgette Fadel, Lincoln Antonio e Juliana Amaral.

da música e do drama

A música substantiva e sem efeitos de Lincoln Antonio e a maestria da atriz Georgette Fadel, com a participação precisa de Juliana Amaral, formam o espetáculo a que assisti num dos galpões da Funarte SP, em torno da figura de Stela do Patrocínio.  Ela, pelo que sei, era uma doente mental e mereceu o livro no qual se inspiraram os autores. A qualidade da interpretação e a economia do acompanhamento, que em nenhum momento compete com a solista, me encantaram. Apesar de musical, era como se tudo fosse prosa. O diálogo vivo entre piano e voz flui de forma única. É difícil definir o gênero do espetáculo, que não é nada brechtiano e muito menos um musical convencional. É mais como se fosse um documentário cantado, que não soa artificial pela enorme inspiração e integração entre as partes. O despojamento de tudo evidencia ainda mais a enorme riqueza dos talentos envolvidos. O que assisti era uma pré-estréia e, sem dúvida, pretendo rever o espetáculo mais vezes, quando estiver em cartaz. – FAUZI ARAP, autor e diretor

A espinha dorsal deste espetáculo é a cena musical onde Stela conversa com uma visitante, uma estagiária, respondendo as suas perguntas. A sonoridade dos acordes maiores e os pequenos temas que vão se alternando são a base estrutural desta cena e das outras músicas que compõe esta ópera mínima. Ópera porque é um drama musical, tudo é cantado. Mínima porque reduzida na sua formação: uma solista (Stela), sua antagonista (a entrevistadora) e o acompanhamento instrumental do piano. Este trabalho dramático musical teve início em 2001 em estreita colaboração com o cantor e ator Ney Mesquita, morto prematuramente em 2004 quando o espetáculo chegava a forma atual. Georgette Fadel, que dirigia a cena até então, herdou o personagem de Ney Mesquita e leva adiante a voz de Stela transformada em música. – LINCOLN ANTONIO

Entre o teatro e a canção, o trabalho de Ney Mesquita e Lincoln Antonio sobre Stela do Patrocínio tem a beleza das obras que tocam o limite da representação. Consegue, portanto, andar pelo lugar que faz com que a arte valha a pena – o território da autonegação, da superação, da relação verdadeira com alguma coisa incerta, em suspensão. – SERGIO DE CARVALHO, diretor

Há alguns anos a busca de uma “nova palavra” vem se tornando vital para o meu trabalho. Nova velha palavra. Palavra que não venha trazer uma idéia para na seqüência se retirar, vazia. Mas palavra de carne, que é idéia, mas é corpo. Palavra-VIDA. E então Stela do Patrocínio nos vem com essa poesia brutal que emociona e acorda. Agride e amplia os sentidos da vida. Como dizer estas palavras ? Que ator é necessário ? Que cena tornaria tridimensional esse discurso precário ? E então Lincoln Antonio e Ney Mesquita respondem a estas questões com a tão sonhada quebra de fronteiras entre linguagens e nos revela a grandeza do pensamento de Stela através de um lirismo profundo: canto-fala, ator que canta o que não poderia ser dito dentro dos moldes tradicionais da fala teatral, ator que dança o que não poderia ser gesto coloquial. O objetivo: dar voz potente à lucidez rara deste discurso.
E agora, num gesto supremo de afirmação da vertigem apaixonada da vida – tão de acordo com a poesia de Stela – Ney Mesquita morre e lança no ar essa voz-espírito. Consideramos importantíssimo continuar. Agora não mais dirigindo o trabalho, mas como intérprete: a pesquisa da simplicidade, da intimidade e da delicadeza que são exigidas para se pisar sem naufragar nesse território – limite de uma interpretação que transita “naturalmente” entre personagem, artista e narrador.
Para mim, a indizível emoção de dar voz a dois espíritos de inteligência luminosa e amorosa: Stela e Ney. Feliz herança! – GEORGETTE FADEL

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Uma resposta

  1. Lindo!!

    23/04/2011 às 04:36

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